Perdoar é um Ato de Inteligência
Edson Figueiredo– edsonfigueiredo@terra.com.br – Centro Espírita Manoel Bento
A palavra “perdão”, apesar de ser simples de escrever e fácil de pronunciar, possui um significado que reflete uma situação muito complexa e complicada para quem necessita praticá-la.
Isto porque, quem necessita perdoar, é justamente quem está sentindo dor moral, mágoa, ódio ou tristeza, sentimentos estes totalmente antagônicos ao altruísmo, a indulgência e a afabilidade, necessárias para esquecer as ofensas e perdoar aos que nos magoaram. Normalmente, este sentimento de dor moral é ainda mais agravado pelo sentimento de culpa por não conseguirmos sequer pensar no perdão.
No entanto, perdoar é por demais necessário, não porque nos torna moralmente melhores, mas principalmente porque nos liberta de sentimentos negativos, que na maioria das vezes nem almejamos ou procuramos. Assim, perdoar é realmente um ato de inteligência.
Raciocinando sobre esta questão do perdão vamos observar que quem mais falou sobre este sentimento, quem mais indicou o uso desta atitude libertadora e renovadora foi Jesus, principalmente quando aconselha que “perdoemos as ofensas do próximo para que Deus também perdoe nossas ofensas”. (Marcos, 11:25-26); quando disse que “são bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia.” (Mateus, 5:7); quando indica que “se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele apenas; se te ouvir, terás ganho teu irmão.” (Mateus, 18:15); ou quando responde a Pedro, quando este pergunta: "Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?" - “Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes." (Mateus, 18:21, 22.); quando nos indica para “reconciliarmo-nos o mais depressa possível com o nosso adversário, enquanto estamos com ele a caminho.” (Mateus, 5:25,26.); quando nos aconselha “quando fordes depor vossa oferenda no altar, te lembrardes de que o vosso irmão tem qualquer coisa contra vós, - deixai a vossa dádiva junto ao altar e ide, antes, reconciliar-vos com o vosso irmão; depois, então, voltai a oferecê-la.” (Mateus, 5:23,24); quando responde aos escribas e fariseus que queriam apedrejar a mulher adultera “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.” (João, 8:3); quando em resposta a mulher adultera, lhe diz: “Mulher, onde estão os que te acusaram? Ninguém te condenou?”
- Ela respondeu: “Não, Senhor.” Disse-lhe então Jesus: “Também eu não te condenarei. Vai e não peques mais.” (João, 8:10,11); quando indica para “Amarmos os nossos inimigos e fazermos o bem àqueles que nos perseguem e caluniam.” (Mateus, 5:43,44); quando também aconselha que “se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra; - e que se alguém quiser vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; - e se alguém vos obrigar a caminhar mil passos, caminhe com ele mais dois mil.” (Mateus, 5:38-42.); quando apresentou a “Parábola do Credor Incompassivo.” (Mateus, 18:23-35); a “Parábola das Cem Ovelhas.” (Lucas, 15:4-7); e também a “Parábola do Filho Pródigo.” (Lucas, 15:11-32); ou quando ensinou a orar dizendo: “Pai nosso que estais no céu, santificado seja vosso nome, perdoai nossa ofensas assim como perdoamos nosso ofensores. ”(Mateus, 6:9-13) ou quando estava no calvário, dirigiu-se a Deus pedindo: “Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem” (Lucas, 23,34).
Todas estas mensagens do evangelho, aliadas a outras tantas aqui não descritas, indicam que Jesus insistiu no uso do perdão, da indulgência, da caridade e da humildade como bases para o crescimento espiritual do ser humano. Mas, a pergunta que fica é a seguinte: Porque Jesus insistiu tanto com o perdão e o esquecimento das ofensas? O que há por traz desta insistência? Será que realmente o perdão traz algum tipo de benefício a quem o utiliza?
Para entender o que Jesus pretendia com a indicação do uso do perdão, temos que nos ater ao que nos esclarecem os espíritos sobre Jesus, ou seja: eles dizem que Jesus foi um dos mais evoluídos espíritos que já encarnaram em nosso planeta. Um espírito com tal nível de crescimento espiritual, que foi um dos co-criadores da Terra (segundo Emmanuel)1. Assim, se Jesus realmente tinha esta capacidade espiritual, este nível profundo de conhecimento do ser humano, ele sabia exatamente o que estava aconselhando. Consequentemente, seu evangelho não é apenas um amontoado de palavras bonitas, éticas e morais, mas sim um verdadeiro tratado científico de análise da psicologia do comportamento humano.
Jesus aconselhou insistentemente o uso do perdão, porque sabia que o maior prejudicado com o “não perdão” e o “não esquecimento das ofensas” é o próprio ofendido. Sabia que o pensamento é energia e que toda energia emitida pelo ser humano através de seus pensamentos, além de trafegar no espaço como ondas (mesmo principio do som), também fica retida, em parte, no próprio individuo emissor, compondo assim sua “psicosfera pessoal”.
Isto significa dizer que pensamentos bons e leves emitem boas energias que mantém o individuo equilibrado e saudável, enquanto que pensamentos ruins e pesados emitem energias deletérias que prejudicam o organismo psíquico e físico do emissor. Se a emissão destas energias deletérias for constante e insistente, cedo ou tarde o individuo demonstrará no seu organismo físico ou mesmo no seu comportamento, os seus efeitos devastadores, resultando nas doenças psíquicas e/ou físicas.
Outro fator a considerar no atual ensino dos espíritos e que já era de conhecimento de Jesus, é a questão da afinidade e sintonia de pensamentos e energia. Ou seja, o princípio de que todo pensamento emitido se sintoniza com pensamentos semelhantes emitidos por outros espíritos, quer estejam encarnados ou não, criando a linha mestra de afinidade de valores, idéias e ideais, adensando a psicosfera própria dos seres. Com isso, fica fácil entender que dependendo dos nossos pensamentos e atitudes, atrairemos nossas companhias espirituais e também as pessoas que gravitarão a nossa volta. Assim, que tipo de companhias terá uma pessoa rancorosa e orgulhosa?
Os espíritos ensinam também que, tanto os seres desencarnados que gravitam em torno do planeta Terra, quanto os encarnados que o habitam, estão ainda estagiando em um nível de evolução primário, prescindindo de aprendizados tão básicos, que nos coloca em condição de não superioridade e de não julgamento a ninguém, conforme aconselhou Jesus. Por isso, errar faz parte do aprendizado e da evolução dos seres e ninguém em sã consciência pode dizer que jamais errou ou que nunca errará. Assim, perdoar a um erro do outro é candidatar-se a receber perdão de seus próprios erros que, com certeza, acontecem ou ainda acontecerão.
Perdoar é também libertar-se de uma energia deletéria que não deveria estar consigo, já que normalmente esta energia só é por nós produzida quando acreditamos que alguém errou conosco. É o outro que erra, mas somos nós que sofremos porque não entendemos e condenamos sua atitude. Considerando, então, que estagiamos em níveis básicos de aprendizado, sofrer pelo erro do outro sabendo que você mesmo também pode errar, além de insano, pode ser chamado de burrice. É por isso que perdoar é um ato de inteligência, pois permite que você se liberte desta energia ruim produzida por você mesmo.
Considerando mais um ensinamento dos espíritos que também era de conhecimento de Jesus, que é a existência da “Lei de Causa e Efeito” ou “Ação e Reação”. Vamos entender que todo pensamento emitido hoje - a causa ou ação - fatalmente refletirá futuramente num efeito ou reação contrário. Pensamentos bons refletirão bons efeitos ou reações, assim como pensamentos ruins refletirão maus efeitos ou reações. Esta é a lei.
Então, não é de se estranhar que pessoas que se coloquem como sofredoras, ofendidas e vítimas, fiquem para traz na escalada evolutiva, enquanto que outras que são consideradas os algozes, sigam em frente e cresçam como seres espirituais. Isto porque, enquanto os primeiros ficam paralisados na lamentação da sua desdita sem nada aprenderem, os outros reconhecem seus enganos e seguem adiante aprendendo com a reparação dos próprios erros.
Finalizando, para perdoar é preciso compreender o erro do outro e para compreender é preciso disposição para o entendimento. Iniciamos o processo do perdão quando temos disposição para verificar se não fomos nós mesmos que provocamos o erro do outro, com nossas próprias atitudes. É preciso entender também que perdoar não significa concordar com os erros alheios, mas simplesmente compreende-los. O perdão não requer a aceitação passiva e a convivência com pessoas que nos desrespeitem, em nome de uma pseudo caridade, afabilidade e indulgência que ainda não possuímos. Ao perdoar você se candidata a estar em paz consigo mesmo e a manter bons relacionamentos que frutificarão no seu próprio crescimento. Eis porque perdoar é um ato de inteligência.
1 Livro A Caminho da Luz – Autor Espiritual Emmanuel – psicografia de Francisco Candido Xavier